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sexta-feira, agosto 03, 2007

" Eu sei, mas não devia " de Marina Colasanti



www.ashistoriasdailda.no.comunidades.net/

* Caros amigos e visitantes desta casa da Palavra, hoje deixo este texto como reflexão para o final de semana. Mantenho o texto original em Português do Brasil porque assim entendo ser. Respeitando a originalidade da grande senhora Marina Colasanti. *

Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

***Um Abraço ***

8 comentários:

C Valente disse...

Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
Uma verdade intrínseca, mas o homem como um animal de hábitos, peca duplamente, por não tomar uma posição perante a vida e as coisa, e por se acumular

Nós mudamos e devemos mudar todos os dias um pouco, mas o pior são os tubarões .
Saudações amigas

C Valente disse...

Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
Uma verdade intrínseca, mas o homem como um animal de hábitos, peca duplamente, por não tomar uma posição perante a vida e as coisa, e por se acumular

Nós mudamos e devemos mudar todos os dias um pouco, mas o pior são os tubarões
Saudações amigas

Menina do Rio disse...

A gente se acostuma com tudo! A gente se anula, se aliena, infelizmente...

Beijinhos

Fernanda e Poemas disse...

Ilda,
obrigada pela visita ao meu blog,
gostei muito do texto que lá escresves-te.
Agora ao ler o teu digo-te se me permites que faço minhas as tuas palavras; Vivemos é certo no meio da selva.

Beijos

Fernanda

Paula Raposo disse...

Excelente reflexão!!! Sem palavras...beijos para ti, Ilda.

Sahmany disse...

A gente se acostuma com tanta coisa que quando se dá conta acaba se assustando.
Bom domingo, ótima semana.
Abraço Fica com Deus.

Sei que existes disse...

Pois... aí está o nosso mal, a nossa infeicidade!... Acostumamo-nos a tudo o que nos impede de "voar livremente" e nos deixa infelizes!
Beijinhos

Eliana Ribeiro disse...

Querida Ilda.
Aqui do outro lado do Atlântico VOU NÃO ME ACOSTUMANDO, graças à Deus,Ñanderu e Olorum...
Finalmente visito seu blog; chego para um cafezinho virtual, talvez com uns pastéis de Santa Clara daí, talvez com uns pães de queijo daqui.
Que lindo é! BELAS PALAVRAS, BELAS IMAGENS, BELO CORAÇÃO DE QUEM PRODUZ!
Um grande abraço!
Eliana