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domingo, junho 24, 2007

" O CAÇADOR DE BORBOLETAS




“ O Caçador de Borboletas “

Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, jogos de
computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O
equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira
com fundo de cortiça, e muitos alfinetes coloridos.
Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era
possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até
trocar exemplares repetidos com os amigos. Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. Foi para o matagal, junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam
insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas, que guardara dentro do
frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar numa voz de algodão doce – uma voz tão
doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu, pousada numa flor, uma
borboleta linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. Sentiu o que
deve sentir em momentos assim todo o caçador : sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que
as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu
a borboleta soltar-se da flor num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas
de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
– Agora és minha – disse-lhe –, toda a tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há
instantes o encantara:
– Isso não é possível – era a borboleta que falava. – Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia então ali um homem sábio e bom,
chamado Buda...
Vladimir esfregou os olhos:
– Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
– Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom,
achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao
vento e disse: voem! E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
– Não! – disse Vladimir abanando a cabeça. – Eu sou um caçador de borboletas.
As borboletas nascem, voam e morrem, e se não forem os coleccionadores, como eu,
desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um
riso de troça):
– Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não
podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não
podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas.
Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o
lugar dela.
Vladimir começava a achar que a borboleta tinha razão.
– Se eu te libertar agora – perguntou –, tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.
– Já sou tua – disse –, e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas
Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha
feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
– Muito boa – disse. – Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.

(texto com supressões)
José Eduardo Agualusa, Estranhões e Bizarrocos,
Lisboa, Dom Quixote, 2000

11 comentários:

O Sentir dos sentidos disse...

Ilda Minha Querida!!!!!!!

Que bela História...e quantas verdades nela contida. O Amor verdadeiro é aquele que liberta e não aprisiona.
Tôlo é aquele que pensa em se prendendo um sentimento, uma verdade, para sempre os terá.
Amei a forma poética deste escrito, as verdades, as cores, os risos...Adorei tudo Ilda.
Acredito que a beleza do teu espírito está nestas histórias de amor que nos presenteia.Obrigada por fazer deste meu domingo algo com mais sentido...pois escritos desta natureza enriquecem nossas almas e nos fazem crescer.
Tenha uma semana cheia de paz, de amor...e de mais idéias...para nos ofertar minha querida.
Bela História!Bela!Bela!!!!!

Beijo consentido de carinho,

Sei que existes disse...

Que linda história! Adorei!
Beijocas

Paula Raposo disse...

Lindíssima história!! Beijinhos

Mila disse...

Passe lá na horta para vere os novos produtos, se quiser aceitar ....faça favor***

Reflexos da Alma disse...

Minha Querida Ilda !

Uma História cuja beleza e Ensinamentos não tem adjectivos !!!!

Uma história que fala em Buda, esse Sábio Homem .... uma História que enaltece a Beleza única da Natureza e cuja Liberdade deverá ser sempre Eterna ....

Magia, Magia , Magia ....

Simplesmente Amei !!!

Um Beijo Grande te deixo minha Querida !!!

Isabel José António disse...

Cara Amiga Ilda,

É um texto que "dava pano para mangas".

O caçador que acaba caçado. O observador que acaba por compreender que a coisa observada também é ele mesmo, já que ele e a realidade que observa fazem parte da mesma imensa realidade quântica ondem ambos se movem e têm a sua existência.

Aproveito a oportunidade para a convidar, se estiver em Lisboa, a assistir a uma conferência que irei efectuar em 14/07/2007, à 18,00 horas, na Soc. Portuguesa de Naturalogia, sita na Rua do Alecrim, nº38-3º, em Lisboa, subordinada ao seguinte tema:
CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE.

Haverá depois um diálogo entre o conferencista e a assistência. A entrada é livre.

Um abraço

José António

Ilda Oliveira disse...

Obrigado Cara Amiga pela visita e pelo convite. Será um Prazer estar presente. Receba um Abraço de Carinho e Contos Perfumados de Alegria e Paz...
Ilda

Maria Clarinda disse...

Simplesmente maravilhosa esta tua história!!!!
Parabéns, jinhos mil

Kanoff disse...

Modula o rouxinol violino alado
as notas musicais da serenata
trovas de oiro e de rosas carmim
na alvura doce do luar coalhado…
Cantam em coro cigarras à desgarrada...
Fura o ralo o fino ar...negro cetim...
na estridência fina de um flautim
pelo trombone do sapo acompanhada...
Das profundezas místicas da mata
cai de uma fonte um harpejar sem fim…
Murmura ao longe a negra ramaria…
Das pedrinhas do rio são arrancadas
notas líquidas verde desmaiadas…
Soa em surdina, o vento em correria…

Andreia do Flautim disse...

Olá! =)

Eu adoro borboleras =)

p.s. obrigada pela visita, volta sempre =)

deborah disse...

amei essa história,eu adoro borboletas...

eu tbm gostei do caçador...

beijoss

xau